quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Um tufão na esfera das formigas



Todas as pétalas se beneficiam da falta de necessidade de consciência (ou não) da relevância. Pouco importa se uma pétala soube utilizar seu conhecimento específico, se soube combinar texturas, se soube dizer como se sentia ou se soube esconder o seu segredo da hora inapropriada. A inconveniência era uma eterna desconhecida para qualquer pétala. A pétala não deve ser punida por desconhecer (ou mesmo por não seguir) banais regras de etiqueta. 
A pétala pode se ausentar quando pressente uma tempestade, e reaparecer apenas quando o orvalho estiver habitando a delicadeza das nuvens. Ninguém se ocupa dos pensamentos da pétala como se descabelam com determinados pensamentos nossos, ainda que habitem apenas a esfera psicológica - nem a esfera psicológica é intocável como a pétala. Lei alguma é aprovada ou indeferida sobre as relações entre pétalas. 
Beije quem queira, e nada me valerá a esperança. Beije quem o escolhera, e nada me valerá a impureza. Beije duas pétalas vazias de decepção - porque essa está toda ocupada com a humanidade - e de nada me valerá o compromisso. Beije seu orvalho e minha pureza e serei sempre sua. As pétalas não necessitam de poesia para sentir a beleza estética do lirismo da vida, pois elas são o soneto do jardim, são o dodecassílabo do existencialismo. 
As pétalas não entendem segredos - não necessitam da ausência que eles abarcam. O separar-se tão característico da humanidade enquanto indivíduo é totalmente incompreensível para a delicadeza de cada pétala que participa da decadência contemporânea do jardim que um dia poderia ter sido salvo por algum conhecedor da peculiaridade condicional das pétalas. 

Um homem amarrotado em seu jaleco há três dias sem lavar passa sem se dar conta pelo jardim, e não se apropria de seu tempo para coabitar no delas. Julga padecer da falta de tempo. Pétala alguma conhece falta de tempo, pois o tempo é percepção, tempo é subjetivação, tempo é renegar o olhar e desejar o além-mar, tempo é repetição, tempo é entregar-se para o outro. Tempo é paixão. As pétalas sabem tudo da paixão. 


*Texto escrito por Fernanda Marques Granato.
*Texto protegido pela lei de direitos autorais. 
**As opiniões expressas nesse post são de total responsabilidade do seu autor.**

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